Pessoa, os cafés e as tabernas de Lisboa
Várias fotografias, pinturas e esculturas imortalizam o Fernando Pessoa frequentador de cafés, seu poiso diário, onde meditava, escrevia e convivia. Os cafés aonde ia eram os mais conhecidos de Lisboa: as duas Brasileiras, a do Chiado e a do Rossio; o Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço; o Café Martinho, ao lado do Teatro D. Maria; o Café Montanha, na Rua da Assunção; provavelmente, também o Café Chiado, o Nicola, o Portugal, o Gelo e outros. Todos situados, naturalmente, na Baixa e Chiado, o pequeno mundo onde Pessoa se movia e trabalhava.
De todos estes lugares, desocupados entretanto, na sua maioria, pelos ff da finança, da fancaria e do fast food , apenas a Brasileira do Chiado mantém ainda hoje um arzinho ténue, quase inexistente, de café literário ou café de tertúlias.
É hoje evidente que, das muitas maneiras de non fare niente, a vida de café era uma das mais produtivas. Mais profícua do que muitas formas oficiais de laborare, embora sempre olhada como ociosidade potencialmente subversiva. Desde que os cafés chegaram à Europa no século XVII, pela porta da Turquia, que as autoridades dos regimes opressores os têm debaixo de olho. O puritanismo, religioso ou laico, também sempre estigmatizou os cafés como locais de indolência, maledicência e perdição. "Intriga de café", "conversa de café", "literatos de café", etc., são expressões curiosamente depreciativas acerca de um lugar onde, há séculos, se constrói laboriosamente a literatura, se afina a crítica e se debate a política nacional. A "mesa do café" é um lugar de liberdade malquisto dos defensores da ordem estabelecida e do sacrário familiar.
É óbvio que um solitário empedernido e um desassossegado doublé de indisciplinador mental como Fernando Pessoa só podia fazer do café a sua segunda casa. Não há paradoxo quanto a ser solitário. Disse Alfred Polgar que os frequentadores de café são "pessoas cuja repulsa pelos seres humanos seus semelhantes é tão viva quanto a necessidade de estar com gente que queira estar só, mas que precise de companhia para isso". A tertúlia de café funciona, para o solitário, como "material isolante" que protege o seu mundo interior do exterior, Polgar dixit. E quem somos nós para duvidar do filósofo de café por excelência?
Na Lisboa do final da Monarquia e princípio da República, cada tertúlia literária e política tinha o seu antro, a sua sede, de modo que Fernando Pessoa, que fugia a "capelas" e círculos apertados, podia visitar três cafés num só dia, especialmente se procurasse alguém, para discutir um projecto ou pedir dinheiro emprestado. A utilidade que Pessoa buscava nas conversas de café era, porém, o mais das vezes, a do conteúdo da própria conversa, sobre cuja qualidade e elevação era extremamente exigente. Se alguém apenas quisesse falar de si próprio ou dos seus pequenos problemas existenciais, Pessoa virava-lhe as costas. Da mesma forma que abominava quem dissesse ordinarices ou mantivesse um nível baixo, plebeu ou agressivo de conversação. Isto apesar de Pessoa, consabidamente, preferir as companhias masculinas às femininas, que o intimidavam ou aborreciam. Os cafés lisboetas das primeiras décadas do século XX eram locais eminentemente misóginos, aonde uma mulher decente raramente se aventurava - e só em companhia masculina. Diferentes seriam algumas casas de chá, onde a presença feminina já era natural, pelo menos à hora do dito.
O nosso maior poeta do século XX escreveu alguns textos em papel de carta de cafés, ornado do respectivo timbre. Há, por exemplo, um poema de 1916 escrito em papel timbrado da Brasileira. Em alguns escritos pessoanos aparecem referências a cafés e aos seus frequentadores, mas, que eu saiba, Pessoa nunca abordou com maior desenvolvimento o tema da vida de café. A obra publicada e inédita do escritor é tão vasta, porém, que posso estar enganado.
Nos cafés, Pessoa portava-se irrepreensivelmente e exigia que os outros fizessem o mesmo. No consumo, não devia passar do cafezinho, com ou sem bagaço. Vinho, obviamente, não era para ali. Pessoa não queria que as pessoas com quem se relacionava o vissem alcoolizado. De facto, um frequentador da tertúlia do Café Montanha nos anos 20 e 30, Francisco Peixoto Bourbon, que foi próximo de Pessoa, afirmou que nunca nenhum amigo do poeta o viu embriagado. Pessoa cuidava da sua imagem (verdadeira) de gentleman, de que também fazia parte o laço papillon, o bom chapéu, a boa gabardine.
A taberna foi o outro poiso diário de Pessoa, embora regido por mui diversas leis. Aí as companhias eram certamente de carácter muito mais anónimo e ocasional. O grande bebedor busca o anonimato. As tabernas, as carvoarias e as leitarias ("onde eu não ia beber leite") que Pessoa frequentava não tinham nome digno de nota, à excepção da adega Abel Pereira da Fonseca, a que Pessoa concedia o petit nom carinhoso de Abel. "Estive no Abel", "vou ao Abel", dizia ele à Ofélia, certamente para a afugentar de si. Na Baixa, Rua dos Sapateiros, existe ainda hoje uma relíquia do passado: a Camponesa, uma leitaria com azulejos arte nova, quiçá frequentada pelo nosso poeta. No Chiado havia também, leio, a "leitaria do Araújo" (talvez a Leitaria Garrett), onde Stuart Carvalhais rabiscava os seus famosos bonecos entre dois copos de tinto. Um desses bonecos de taberna pode ter sido a sua famosa caricatura de Pessoa, publicada na Ilustração em 1929.
Mesmo alcoolizado, Pessoa nunca terá pisado o risco. O gentleman retirava da taberna e ia para casa - a sua ou a de algum amigo - quando não queria que a família o visse em estado de embriaguês. No final da vida, morando sozinho, embebedava-se mais em casa: o barbeiro trazia-lhe todas as manhãs ao primeiro andar da Rua Coelho da Rocha uma garrafa de aguardente, que ele consumia à noite. A fonte desta conhecida história é o filho do dito barbeiro.
Ao contrário do café, a taberna foi tema de escritos de Fernando Pessoa. Há um poema, por exemplo, em que o ortónimo glorifica a taberna e a bebedeira - que me perdoem a família e os fans mais devotos. O original dactilografado, sem título e sem emendas (nem nódoas de vinho...), data de 18 de Setembro de 1933. Foi pela primeira vez publicado em Poemas de Fernando Pessoa, 1931-1933, Imprensa Nacional, 2004, edição crítica de Ivo Castro. Ei-lo:
Vem beber dois. Toda a vida
É uma coisa sem nexo
Que só se sente bebida
Quando perde o nexo e o sexo.
Vem comigo conversar
Enquanto o vinho se esgota.
Que mais nos vale este estar
A morrer-nos, gota a gota?
Tudo é absurdo. Nada obriga.
E sobre esta confusão
É ponte o fio que liga
A taberna ao coração.
De todos estes lugares, desocupados entretanto, na sua maioria, pelos ff da finança, da fancaria e do fast food , apenas a Brasileira do Chiado mantém ainda hoje um arzinho ténue, quase inexistente, de café literário ou café de tertúlias.
É hoje evidente que, das muitas maneiras de non fare niente, a vida de café era uma das mais produtivas. Mais profícua do que muitas formas oficiais de laborare, embora sempre olhada como ociosidade potencialmente subversiva. Desde que os cafés chegaram à Europa no século XVII, pela porta da Turquia, que as autoridades dos regimes opressores os têm debaixo de olho. O puritanismo, religioso ou laico, também sempre estigmatizou os cafés como locais de indolência, maledicência e perdição. "Intriga de café", "conversa de café", "literatos de café", etc., são expressões curiosamente depreciativas acerca de um lugar onde, há séculos, se constrói laboriosamente a literatura, se afina a crítica e se debate a política nacional. A "mesa do café" é um lugar de liberdade malquisto dos defensores da ordem estabelecida e do sacrário familiar.
É óbvio que um solitário empedernido e um desassossegado doublé de indisciplinador mental como Fernando Pessoa só podia fazer do café a sua segunda casa. Não há paradoxo quanto a ser solitário. Disse Alfred Polgar que os frequentadores de café são "pessoas cuja repulsa pelos seres humanos seus semelhantes é tão viva quanto a necessidade de estar com gente que queira estar só, mas que precise de companhia para isso". A tertúlia de café funciona, para o solitário, como "material isolante" que protege o seu mundo interior do exterior, Polgar dixit. E quem somos nós para duvidar do filósofo de café por excelência?
Na Lisboa do final da Monarquia e princípio da República, cada tertúlia literária e política tinha o seu antro, a sua sede, de modo que Fernando Pessoa, que fugia a "capelas" e círculos apertados, podia visitar três cafés num só dia, especialmente se procurasse alguém, para discutir um projecto ou pedir dinheiro emprestado. A utilidade que Pessoa buscava nas conversas de café era, porém, o mais das vezes, a do conteúdo da própria conversa, sobre cuja qualidade e elevação era extremamente exigente. Se alguém apenas quisesse falar de si próprio ou dos seus pequenos problemas existenciais, Pessoa virava-lhe as costas. Da mesma forma que abominava quem dissesse ordinarices ou mantivesse um nível baixo, plebeu ou agressivo de conversação. Isto apesar de Pessoa, consabidamente, preferir as companhias masculinas às femininas, que o intimidavam ou aborreciam. Os cafés lisboetas das primeiras décadas do século XX eram locais eminentemente misóginos, aonde uma mulher decente raramente se aventurava - e só em companhia masculina. Diferentes seriam algumas casas de chá, onde a presença feminina já era natural, pelo menos à hora do dito.
O nosso maior poeta do século XX escreveu alguns textos em papel de carta de cafés, ornado do respectivo timbre. Há, por exemplo, um poema de 1916 escrito em papel timbrado da Brasileira. Em alguns escritos pessoanos aparecem referências a cafés e aos seus frequentadores, mas, que eu saiba, Pessoa nunca abordou com maior desenvolvimento o tema da vida de café. A obra publicada e inédita do escritor é tão vasta, porém, que posso estar enganado.
Nos cafés, Pessoa portava-se irrepreensivelmente e exigia que os outros fizessem o mesmo. No consumo, não devia passar do cafezinho, com ou sem bagaço. Vinho, obviamente, não era para ali. Pessoa não queria que as pessoas com quem se relacionava o vissem alcoolizado. De facto, um frequentador da tertúlia do Café Montanha nos anos 20 e 30, Francisco Peixoto Bourbon, que foi próximo de Pessoa, afirmou que nunca nenhum amigo do poeta o viu embriagado. Pessoa cuidava da sua imagem (verdadeira) de gentleman, de que também fazia parte o laço papillon, o bom chapéu, a boa gabardine.
A taberna foi o outro poiso diário de Pessoa, embora regido por mui diversas leis. Aí as companhias eram certamente de carácter muito mais anónimo e ocasional. O grande bebedor busca o anonimato. As tabernas, as carvoarias e as leitarias ("onde eu não ia beber leite") que Pessoa frequentava não tinham nome digno de nota, à excepção da adega Abel Pereira da Fonseca, a que Pessoa concedia o petit nom carinhoso de Abel. "Estive no Abel", "vou ao Abel", dizia ele à Ofélia, certamente para a afugentar de si. Na Baixa, Rua dos Sapateiros, existe ainda hoje uma relíquia do passado: a Camponesa, uma leitaria com azulejos arte nova, quiçá frequentada pelo nosso poeta. No Chiado havia também, leio, a "leitaria do Araújo" (talvez a Leitaria Garrett), onde Stuart Carvalhais rabiscava os seus famosos bonecos entre dois copos de tinto. Um desses bonecos de taberna pode ter sido a sua famosa caricatura de Pessoa, publicada na Ilustração em 1929.
Mesmo alcoolizado, Pessoa nunca terá pisado o risco. O gentleman retirava da taberna e ia para casa - a sua ou a de algum amigo - quando não queria que a família o visse em estado de embriaguês. No final da vida, morando sozinho, embebedava-se mais em casa: o barbeiro trazia-lhe todas as manhãs ao primeiro andar da Rua Coelho da Rocha uma garrafa de aguardente, que ele consumia à noite. A fonte desta conhecida história é o filho do dito barbeiro.
Ao contrário do café, a taberna foi tema de escritos de Fernando Pessoa. Há um poema, por exemplo, em que o ortónimo glorifica a taberna e a bebedeira - que me perdoem a família e os fans mais devotos. O original dactilografado, sem título e sem emendas (nem nódoas de vinho...), data de 18 de Setembro de 1933. Foi pela primeira vez publicado em Poemas de Fernando Pessoa, 1931-1933, Imprensa Nacional, 2004, edição crítica de Ivo Castro. Ei-lo:
Vem beber dois. Toda a vida
É uma coisa sem nexo
Que só se sente bebida
Quando perde o nexo e o sexo.
Vem comigo conversar
Enquanto o vinho se esgota.
Que mais nos vale este estar
A morrer-nos, gota a gota?
Tudo é absurdo. Nada obriga.
E sobre esta confusão
É ponte o fio que liga
A taberna ao coração.

1 Comments:
E, assim,o poeta foi um(a) Pessoa ortónimo(a)...
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